“Segurem-se firmes, porque o que vem chegando ai é uma
tempestade.
Gotas grandes começam a cair na gente. A escuridão se
aproxima com uma rapidez vertiginosa [...] Agora um Vento de violência nunca
vista nos ataca. As Ondas, como por encanto, se formam com rapidez incrível,
todas cobertas de espuma; o Sol esta completamente aniquilado, chove
torrencialmente, não se enxerga nada e as Ondas, batendo contra o barco, lançam
fortes jatos de água em nosso rosto. É tempestade, minha primeira tempestade,
com toda a fanfarra da natureza desencadeada, o trovão, os relâmpagos, a chuva,
as Ondas, os Uivos do Vento que ruge em cima de nós, em volta de nós.
O barco, carregado como uma palha, sobe e desce a
alturas incríveis e abismos tão profundos, que a gente tem a impressão de não
poder mais sair deles. No entanto, apesar desses mergulhos fantásticos, o barco
torna a subir, vence mais uma crista de Onda e passa e torna a passar. Seguro a
barra do leme com as duas mãos, pensando como enfrentar um vagalhão um pouco
mais alto que vem vindo, mas, na hora em que aponto o barco para cortá-lo,
faço-o rápido demais e deixo entrar grande quantidade de água. O barco todo
fica inundado. [...] Nervosamente, sem querer, fico enviesado diante de uma de
uma Onda, o que é extremamente perigoso, e o barco fica tão inclinado, prestes
a virar, que devolve uma enorme quantidade de água. [...] Desisto de lutar contra
o curso das Ondas, não me preocupo mais com a direção a seguir, simplesmente mantenho
o barco em equilíbrio [...] desço voluntariamente ao fundo com elas (Ondas) e
subo novamente, junto com o próprio Mar. Logo me dou conta de que minha
descoberta é importante e que assim eu eliminei noventa por cento de perigo. A
chuva pára, o Vento sopra sempre com fúria, mas agora posso enxergar bem à
frente e atrás de mim. Atrás esta claro; na frente, preto, e nós estamos no
meio desses dois extremos. [...] O sol brilha de novo em cima de nós, o Vento é
normal, as Ondas menos altas; iço a vela e partimos novamente, satisfeitos. [...]
Uma paz me invade com uma doçura pouco comum e, com a paz, a sensação de que
posso ter confiança em mim. Havia perdido essa confiança e a pequena tempestade
foi muito útil para mim. Sozinho, aprendi como manobrar nesses maus tempos. Vou
enfrentar a noite com uma serenidade completa. [...] Com um Vento e umas Ondas
como aquelas, quanto à gente não deve ter ido à deriva (?)” Trecho de Papillon
– Henri Charrière(1974)
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