sexta-feira, 11 de maio de 2012


“Segurem-se firmes, porque o que vem chegando ai é uma tempestade.
Gotas grandes começam a cair na gente. A escuridão se aproxima com uma rapidez vertiginosa [...] Agora um Vento de violência nunca vista nos ataca. As Ondas, como por encanto, se formam com rapidez incrível, todas cobertas de espuma; o Sol esta completamente aniquilado, chove torrencialmente, não se enxerga nada e as Ondas, batendo contra o barco, lançam fortes jatos de água em nosso rosto. É tempestade, minha primeira tempestade, com toda a fanfarra da natureza desencadeada, o trovão, os relâmpagos, a chuva, as Ondas, os Uivos do Vento que ruge em cima de nós, em volta de nós.
O barco, carregado como uma palha, sobe e desce a alturas incríveis e abismos tão profundos, que a gente tem a impressão de não poder mais sair deles. No entanto, apesar desses mergulhos fantásticos, o barco torna a subir, vence mais uma crista de Onda e passa e torna a passar. Seguro a barra do leme com as duas mãos, pensando como enfrentar um vagalhão um pouco mais alto que vem vindo, mas, na hora em que aponto o barco para cortá-lo, faço-o rápido demais e deixo entrar grande quantidade de água. O barco todo fica inundado. [...] Nervosamente, sem querer, fico enviesado diante de uma de uma Onda, o que é extremamente perigoso, e o barco fica tão inclinado, prestes a virar, que devolve uma enorme quantidade de água. [...] Desisto de lutar contra o curso das Ondas, não me preocupo mais com a direção a seguir, simplesmente mantenho o barco em equilíbrio [...] desço voluntariamente ao fundo com elas (Ondas) e subo novamente, junto com o próprio Mar. Logo me dou conta de que minha descoberta é importante e que assim eu eliminei noventa por cento de perigo. A chuva pára, o Vento sopra sempre com fúria, mas agora posso enxergar bem à frente e atrás de mim. Atrás esta claro; na frente, preto, e nós estamos no meio desses dois extremos. [...] O sol brilha de novo em cima de nós, o Vento é normal, as Ondas menos altas; iço a vela e partimos novamente, satisfeitos. [...] Uma paz me invade com uma doçura pouco comum e, com a paz, a sensação de que posso ter confiança em mim. Havia perdido essa confiança e a pequena tempestade foi muito útil para mim. Sozinho, aprendi como manobrar nesses maus tempos. Vou enfrentar a noite com uma serenidade completa. [...] Com um Vento e umas Ondas como aquelas, quanto à gente não deve ter ido à deriva (?)” Trecho de Papillon – Henri Charrière(1974)

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