domingo, 28 de agosto de 2011

As três Marias

        E a poesia, a grande e divina poesia!
        Mas agora, digo como o velho Rousseau: é preciso não mentir.
A poesia me envolveu, me sufocou, me raptou, é bem verdade.
Mas na sua forma mais banal e subalterna – nos sonetinhos sentimentais, nas coisas leves e triviais do amor.
        Bastava qualquer verso fácil dum poeta de boudoir, que dissesse coisas gentis e românticas, para me encher os olhos de água.
Ah, Toi et Moi! Ah, Géraldy!
         A poesia, a grande poesia, verdadeira e poderosa, essa só me possui lentamente, quando minha alma foi perdendo aos poucos as sucessivas capas que a cobriam. Quantos anos levei, quantas almas gastei em emoções de segunda ordem, até ser capaz de entender e sentir sozinha a beleza da Filha do rei?
         Mas, naquela idade curiosa, só interessa e comove o postiço, o artificial.
         A linda heroína tem um diálogo malicioso com o jovem sportman, Apolo remador, Tarzan de calça de flanela? É lindo, comenta-se, decora-se.
         Mas um grande grito de paixão humana, de dor ou de amor, choca, escandaliza, mostra coisas que a gente não quer ver, nudezes que nos parecem obscenas.
         Qualquer de nós trocaria todo Shakespeare (inclusive Romeu e Julieta) por um só volume da Passageira ou de Mon oncle et mon cure.
        (...)
         A guerra, só a compreendíamos com heróis esbeltos, vestidos de azul-horizonte, voltando, levemente mutilados e cobertos de medalhas, para os braços da amada. Aquela guerra suja e sem poesia, as latrinas, as pragas, o medo e a miséria dos soldados apenas nos trouxeram indignação, nojo.
        (...). Nos mesmas o banimos; e se ele (o livro) demorou algum tempo, foi nas mãos de alguma pequena mais corrompida ou curiosa, desejosa de ler as imoralidades dos soldados com as francesas, ou conhecer os palavrões sujos das trincheiras.
         Todas voltamos desadoradamente à Fiancée d’avril, para lavar a alma.

Trechos de ‘As três Marias’ - Rachel de Queiroz (21-25 ed. São Paulo: Siciliano, 1992)

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

domingo, 21 de agosto de 2011

Logus-Agimos

O espelho “sem cor” desabrochado, dEs-bLo-tCa-do reflete o imbecil que o aponta.
Uma tempestade que não se e não se escuta, deixa de ser tempestade? Ela (tempo-estado) necessita de desse outro medíocre para se (re)a- firmar-se? Bem, um som que se escuta só, não é um som, é um ruído que a muito não é per-ce-bi-do, ecoando e ecoando nas paredes do castelo de ilusão, arrastando as correntes que insistem em dependurar-se em nossos, seus, meus, teus, dele ombros que inevitavelmente serão calejados/(a)largados/ largos, ate que um deus grego, possa quebra o espelho e uma alma corajosa tenha um sopro forte o suficiente para usar o pó/ cacos e retirar com sangue os calos. Mas, o que esta abaixo/entorno/dentro/sobre/transpassado no lugar que antes era-do-calo? Pele?! Que absurdo! Um insulto a pretensão de quem aponta. Mas...O que sobra? Sobra? Porque o peso antes era tão grande que era apenas peso. E agora? Tu, se permite perceber algo para alem de tu? De tua dor? Da dor que é tua e não minha? Nem dela? Nem dele? Agora que um dos elos da corrente parte no arrastar do peso e crava em tua mão (de apoio/ de desapoio) e tu vê na escuridão que tu tanto ama e a quem é devoto, teu sangue, será que agora tu consegue ver teu reflexo desfigurado de ti?
Caminho que se caminha só, sem saber de onde veio, se-veio nem para se vai, se-vai, é um caminho? Se é. Por que caminhar? Só caminha quem tem força pra andar e coragem para parar se preciso (se)for.
; |